Devaneio literario: Ulisses de James Joyce e a Odisseia de uma Recém-Dubliner

James Joyce é um escritor irlandês cuja obra mais aclamada é Ulisses. Um romance cujo fluxo de consciência transborda as páginas e transforma o leitor em habitante involuntário da mente alheia.

As técnicas de escrita adotadas por Joyce fazem de Ulisses uma das obras mais importantes da modernidade. A complexidade do fluxo de consciência coloca o leitor perdido entre pensamentos, devaneios e descrições — como habitar, sem convite, a mente de outra pessoa. Essa técnica não foi exclusividade de Joyce, já que outros escritores a exploraram anteriormente — Virginia Woolf e Dorothy Richardson entre eles — mas a maestria com que Joyce a conduz é o que torna Ulisses tão singular e tão relevante.

Em um cenário histórico colonialista, com uma sociedade que o próprio Joyce descrevia como paralisada, um contexto econômico desfavorável e a presença sufocante da Igreja Católica, o escritor descreve Dublin com uma precisão quase cirúrgica. Toda a ação do romance se passa em um único dia: 16 de junho de 1904 — data que os admiradores de Joyce celebram até hoje como Bloomsday, em homenagem ao protagonista Leopold Bloom.

Mentira de contamos (Lie with me) – Phillipe Benson


Um adolescente inteligente e dedicado aos estudos, filho do diretor da única escola daquela pequena cidade no interior da França — esse é Philippe, o jovem visto como aquele que romperá as barreiras da mediocridade de viver para sempre em um lugar pequeno, seguindo os passos dos pais e sendo barro que se encaixa em molde.

O escritor usa linguagem simples, narrativa linear — quase o tempo todo — e entrega, em um aspecto geral, um livro fácil de ler. Não fosse a junção daquilo que apetece e que todo ser humano partilha, partilhou ou partilhará: a vivência e a tristeza do primeiro amor. Além de nos falar, em um tom quase de desabafo interno, sobre como o envelhecer e a experiência de vida não apagam esse amor.

Escrevia Como Homem – Lygia Fagundes Telles e o rótulo da escrita feminina

Lygia Fagundes Telles nasceu em São Paulo, em 19 de abril de 1923, formada em Educação Física e Direito. Ocupou a cadeira de número 16 da Academia Brasileira de Letras, para a qual foi eleita em 1985, permanecendo como uma de suas vozes mais respeitadas até seu falecimento, em 3 de abril de 2022, aos 96 anos. Vale lembrar que a Academia Brasileira de Letras só passou a admitir mulheres a partir de 1977 — sendo Lygia ainda uma das primeiras a ocupar esse espaço historicamente masculino.

Seu primeiro livro foi publicado ainda muito jovem, e a própria autora dizia não o considerar como parte de sua obra — afirmando que nem mesmo a pouca idade seria desculpa para uma má escrita. Uma declaração que já revela muito sobre o rigor com que Lygia encarava a literatura, e sobre a exigência que ela impunha a si mesma antes de qualquer crítica externa.