Um adolescente inteligente e dedicado aos estudos, filho do diretor da única escola daquela pequena cidade no interior da França — esse é Philippe, o jovem visto como aquele que romperá as barreiras da mediocridade de viver para sempre em um lugar pequeno, seguindo os passos dos pais e sendo barro que se encaixa em molde.
O escritor usa linguagem simples, narrativa linear — quase o tempo todo — e entrega, em um aspecto geral, um livro fácil de ler. Não fosse a junção daquilo que apetece e que todo ser humano partilha, partilhou ou partilhará: a vivência e a tristeza do primeiro amor. Além de nos falar, em um tom quase de desabafo interno, sobre como o envelhecer e a experiência de vida não apagam esse amor.
“Eu tenho dezessete anos. Nessa época, não tenho conhecimento de que nunca mais terei dezessete anos; não sei que a juventude não dura, que é só um momento, que ela desaparece e que, quando nos damos conta, já é tarde, acabou, sumiu, a perdemos.”
(Besson, Philippe, 2024)
O impacto dessa frase quando se está perto dos 40 é algo a se refletir — como a juventude nos escapa pelos dedos, e a nossa ingenuidade de antes hoje é vista docemente como um vislumbre. E assim como a juventude não dura, a ingenuidade também não — nem a efemeridade do primeiro amor.
São esses temas que a obra nos traz, de forma direta, simples e impactante. Mentiras que Contamos teve o poder de transcender a memória afetiva de diferentes formas.
Ao longo da narrativa, Philippe nos mostra sua vida pacata, seus pais, seus amigos e como as amarras e expectativas sociais o prendiam — até ele conhecer Thomas. Um colega de escola que faz o protagonista realmente entender sua sexualidade e descobrir o quão cruel o preconceito pode ser.
Ao longo da narrativa acompanhamos o jovem casal e seus encontros, todos descritos com delicadeza e sutileza que nos transportam — mesmo que sem querer — às nossas memórias do primeiro beijo, primeiro abraço ou primeiro “eu te amo” dito ou ouvido.
Como dito anteriormente, as amarras das expectativas e uma sociedade preconceituosa fizeram com que cada um, exercendo seu papel preestipulado, seguisse seu caminho ao fim do ano letivo e das férias. A despedida que remete a um adeus para sempre — ou até o destino nos unir novamente — marca a passagem de tempo até o momento em que o primeiro amor se torna somente uma lembrança esquecida na prateleira da memória: um prato repetido que nunca terá o mesmo sabor que da primeira vez.
Sem spoiler do final do livro, posso dizer que cada página nos deixa ansiosos — não somente pelas personagens, mas também por revisitarmos a nossa memória e, como em um espelho, revivermos os bônus e ônus do primeiro amor. E em como o tempo pode desaparecer tão rápido quanto a juventude — mas o sentimento e a experiência do primeiro amor não nos abandonam tão facilmente.
Besson, sem pretensão em floreios linguísticos, traz o peso das lembranças, lágrimas de alegria e tristeza, e questionamentos sobre como a ingenuidade e a fragilidade do amor nos atingem em todos os momentos da vida.
Capa de Mentiras que Contamos, Editora Astral Cultural
Imagem: Amazon