Escrevia Como Homem – Lygia Fagundes Telles e o rótulo da escrita feminina

Lygia Fagundes Telles nasceu em São Paulo, em 19 de abril de 1923, formada em Educação Física e Direito. Ocupou a cadeira de número 16 da Academia Brasileira de Letras, para a qual foi eleita em 1985, permanecendo como uma de suas vozes mais respeitadas até seu falecimento, em 3 de abril de 2022, aos 96 anos. Vale lembrar que a Academia Brasileira de Letras só passou a admitir mulheres a partir de 1977 — sendo Lygia ainda uma das primeiras a ocupar esse espaço historicamente masculino.

Seu primeiro livro foi publicado ainda muito jovem, e a própria autora dizia não o considerar como parte de sua obra — afirmando que nem mesmo a pouca idade seria desculpa para uma má escrita. Uma declaração que já revela muito sobre o rigor com que Lygia encarava a literatura, e sobre a exigência que ela impunha a si mesma antes de qualquer crítica externa.

Em 1954, publica Ciranda de Pedra, seu primeiro romance. A obra causou impacto para a época ao retratar, de forma psicológica e sutil, uma personagem com desejo pelo mesmo sexo — algo que, num Brasil conservador dos anos 1950, soou como provocação.

Imagina só. Década de 50, uma mulher escritora, com uma personagem que escapava às normas heterossexuais. Ultrajante e à frente do tempo — ou não?

Porque essa narrativa de “à frente do seu tempo” me incomoda? Lygia não estava à frente de nada em suas temáticas. Ela era simplesmente uma mulher escrevendo com honestidade sobre o mundo que conhecia. O mesmo vale para Virginia Woolf, que em Orlando — publicado em 1928 — mas isso é tema para uma próxima. Mas o que acontece quando uma mulher escreve sobre temas que fogem ao roteiro esperado? Ela é elevada à condição de exceção — como se houvesse um limite natural para a escrita feminina, e ela, generosamente, tivesse conseguido ultrapassá-lo.

Esse é o rótulo disfarçado de elogio.

A escrita feminina carrega historicamente uma demarcação de temas considerados “apropriados” — o doméstico, o sentimental, o privado. Quem ousasse sair disso era re-rotulada: dizia-se que “escrevia como homem”. Essa frase foi amplamente usada como elogio à escrita de Lygia, principalmente nas décadas de 1950 e 1960, quando a crítica literária brasileira — conservadora em suas estruturas e em seus critérios — considerava a escrita feminina de segunda qualidade por definição. A própria Lygia refutou essa lógica com precisão: a boa ou má escrita não tinha gênero, havia apenas bons ou maus escritores (sem delimitar A ou OR)

E as que se recusavam ao apagamento? Adotavam pseudônimos masculinos para serem publicadas — Currer, Ellis e Acton Bell eram os nomes usados pelas irmãs Brontë; George Eliot escondia Mary Ann Evans; George Sand encobria Amantine Dupin. Ou tinham sua autoria simplesmente questionada quando o trabalho era bom demais — como Mary Shelley, cuja capacidade criativa foi desacreditada por contemporâneos que resistiam a aceitar que Frankenstein havia saído da mente de uma jovem mulher de 19 anos.

Ou seja: o que muito bem feito está, não poderia ter sido feito por uma mulher. 

Esse mecanismo não morreu com o século XIX. Ele sobreviveu, disfarçado de elogio cotidiano. É o mesmo que faz alguém dizer, em tom admirado, “nossa, dirige bem — parece homem dirigindo”. A forma muda. O conteúdo permanece.

A escrita de Lygia — com seu fluxo de consciência, sua densidade política e social — desmonta essa lógica a cada página. Em O Seminário dos Ratos, a claustrofobia psicológica e o absurdo como espelho de um Brasil em colapso moral. Em As Meninas, três jovens mulheres sob uma ditadura que as sufoca por fora e por dentro, e que Lygia soube retratar sem panfleto e sem concessão. Lygia não precisava de rótulo para existir. Mas a sociedade insistia em criá-lo — porque uma mulher que escreve bem, sem pedir licença, é sempre um problema para quem precisa que ela ocupe menos espaço.

O questionamento fica: quem tem medo de Lygia Fagundes Telles? Possivelmente os mesmos que temem a liberdade feminina em sua essência — aqueles que hoje se autodenominam redpills, mas que carregam um medo antigo e bem conhecido: o de uma mulher que escreve, pensa e não pede licença para existir. Um nome novo. Um medo velho.

Visited 7 times, 1 visit(s) today