James Joyce é um escritor irlandês cuja obra mais aclamada é Ulisses. Um romance cujo fluxo de consciência transborda as páginas e transforma o leitor em habitante involuntário da mente alheia.
As técnicas de escrita adotadas por Joyce fazem de Ulisses uma das obras mais importantes da modernidade. A complexidade do fluxo de consciência coloca o leitor perdido entre pensamentos, devaneios e descrições — como habitar, sem convite, a mente de outra pessoa. Essa técnica não foi exclusividade de Joyce, já que outros escritores a exploraram anteriormente — Virginia Woolf e Dorothy Richardson entre eles — mas a maestria com que Joyce a conduz é o que torna Ulisses tão singular e tão relevante.
Em um cenário histórico colonialista, com uma sociedade que o próprio Joyce descrevia como paralisada, um contexto econômico desfavorável e a presença sufocante da Igreja Católica, o escritor descreve Dublin com uma precisão quase cirúrgica. Toda a ação do romance se passa em um único dia: 16 de junho de 1904 — data que os admiradores de Joyce celebram até hoje como Bloomsday, em homenagem ao protagonista Leopold Bloom.
O título remete a Homero e à sua Odisseia. Joyce transforma uma caminhada de um único dia pela capital irlandesa em uma exploração gigantesca da consciência humana — da memória, do desejo e da sexualidade, da linguagem, da solidão e do pertencimento na vida social moderna.
E é aqui que o texto se dobra sobre si mesmo.
O que temos também não deixa de ser uma odisseia — a odisseia de uma recém-Dubliner. Três anos numa cidade que Joyce imortalizou e que, em outro momento, chamou de Dubliners: os habitantes de Dublin, aqueles que a cidade moldou ou prendeu.
Não por acaso, o protagonista de Ulisses é Leopold Bloom — filho de um imigrante húngaro e judeu numa Irlanda católica e fechada sobre si mesma. Bloom caminha por Dublin como alguém que pertence e ao mesmo tempo não pertence. É visto, mas não reconhecido. Está presente, mas permanece estrangeiro. O seu deslocamento não é geográfico — é identitário, social, silencioso. E quem já atravessou uma fronteira com uma mala e a intenção de ficar sabe exatamente do que Joyce estava falando, mesmo que Joyce não soubesse que estava falando para nós.
Em Ulisses, um único dia é descrito, a mente é despida, questionada e refutada em diferentes camadas. E na experiência de mudar de país, esse um dia ecoa em diferentes dias — e em diferentes perguntas. Não só a identidade é repensada: a memória ativa de quem se era antes, de como a vida foi em um tempo passado em terras distantes, a nova língua e a linguagem inserida nesse novo contexto, a solidão que aperta, e o sentimento de pertencimento que se torna vago — tudo isso compõe um fluxo de consciência próprio, vivido, não escrito. Um Bloom à brasileira, digamos.
A ideia aqui não é equiparar-se a Joyce. É salientar que a destreza em transformar agonias humanas — os questionamentos inerentes à nossa existência e a complexidade na qual estão inseridos — é o que faz da obra do escritor ainda mais genial e atrelada à contemporaneidade. Pois em diferentes tempos, os desafios e os impedimentos de ser humano existiram, existem e existirão. Assim como um pub numa esquina de Dublin com uma pint de Guinness.
P.S. — Para os amantes de literatura que um dia pisarem em Dublin: o James Joyce Centre, na North Great George’s Street, é uma visita obrigatória. O centro preserva a história do escritor, organiza exposições, caminhadas literárias pela cidade e é o epicentro das celebrações do Bloomsday todos os anos, no dia 16 de junho — quando Dublin veste o início do século XX e lê Joyce em voz alta nas ruas, nos pubs e nas pontes. Uma experiência que vale cada página difícil de Ulisses.
Link do site: https://jamesjoyce.ie/



